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A vitória do bom senso

por: Hailton Medeiros

A democracia é uma beleza: permite que você expresse e defenda seu ponto de vista sobre qualquer assunto, ao mesmo tempo em que os outros fazem o mesmo, seja para concordar ou divergir. Direitos iguais, mesmo que as opiniões sejam diferentes. Quando isso acontece dentro de uma casa de leis então, como é a Câmara Municipal, melhor ainda. Ali é o lugar para se debater todas as questões que afetam o cotidiano da coletividade, sejam elas quais forem.
Mas o que se viu na Câmara de Jaú esta semana andou na contramão dessa direção lógica. O líder do PT e da oposição, vereador Kakai, elevou o tom de voz e simplesmente se recusou a discutir a possibilidade da abertura do comércio aos domingos e feriados na cidade. Dizendo-se contrário, foi autoritário: “Eu não quero que esse assunto prospere, eu não quero que esse tema entre na pauta, eu não quero que se discuta isso!” Qual foi o argumento do nobre edil para adotar uma postura tão radical assim? “Esse é o meu compromisso com os trabalhadores”, justificou.
Outro que seguiu a mesma linha foi o tucano Tito Coló. “Bota a família deles e os amigos para trabalhar”, bradou o vereador, referindo-se ao autor da proposta e àqueles favoráveis a ele. Ronaldo Formigão, do DEM, também contrário, disse que é “a favor do descanso do funcionário”. Paulo Gambarini, do PSDB, ultrapassou todas as fronteiras do razoável ao argumentar que “(...) certos comerciantes querem que os funcionários trabalhem dia e noite”.
Alegando que é procurado tanto por pessoas que defendem o livre funcionamento do comércio, quanto por aquelas contrárias, a proposta de se ouvir os diversos segmentos da sociedade sobre o assunto foi apresentada pelo vereador Fernando Frederico, do PV. Depois de muita discussão e até bate-boca, o requerimento de autoria dele foi aprovado por 6 votos a 4 (os contrários foram justamente Kakai, Tito, Formigão e Gambarini).
Mudar hábitos e costumes não é tarefa tão simples quanto se pode imaginar. Mesmo quem aparenta ser avançado, nessa hora revela-se conservador e retrógrado. Uns por pura demagogia (sempre presente na política), outros por falta de conteúdo e argumentos, e alguns, ainda, por total desconhecimento do assunto em questão. Aliás, é bom que se diga, sempre foi assim.
Lembro de quando o então vereador Ricardo Bagaiollo apresentou proposta à Câmara para pôr fim ao recesso legislativo de julho, instituindo descanso de “apenas” 60 dias por ano, ao invés de 90, como era antes. O assunto ficou emperrado por 12 anos, até que o bom senso levou à sua aprovação. Hoje, parece inimaginável o abuso que acontecia no passado.
Lembro também de quando o então vereador Raul Bauab Filho propôs uma lei que proibia o nepotismo na Prefeitura e Câmara de Jaú. Se aprovada, seria o fim da vergonhosa e criticada contratação de parentes de políticos para cargos públicos. Não entrou sequer em votação, tamanho o número de vereadores contrários à medida – leia-se “favoráveis à mamata”, para o mais perfeito entendimento.
Lembro ainda quando o então vereador Antenor Zago, em parceria com o atual vereador José Carlos Zanatto, do PP, ousou propor um projeto de lei para proibir a queima da cana no município. Defendia o fim do carvãozinho, alvo de incontáveis reclamações da população. Pois sabe o que aconteceu? A Câmara acovardou-se e não aceitou sequer colocar a matéria em apreciação.
No debate sobre a abertura facultativa do comércio aos domingos e feriados, a Câmara voltou a experimentar um pouco disso tudo. Prova de que alguns tabus parecem entranhados no Legislativo, para o mal da democracia. Entretanto, ao menos neste caso venceu o bom senso: o assunto será discutido com a sociedade, que terá o direito de escolher o que quer. Isto é democrático.