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Fazer beicinho não resolve
por: Hailton Medeiros
As duas reportagens subseqüentes e exclusivas do Jornal Gente sobre a filiação da 1.a dama Caroline Franceschi ao DEM, publicadas nas edições da semana passada, não apenas pegaram o partido de surpresa como expuseram o elevado grau de ingenuidade de alguns dos nossos políticos. O resultado foi um inacreditável show de baboseiras – teve até sugestão de título de cidadania ao prefeito de São Paulo e presidente estadual do DEM, Gilberto Kassab, como agrado para conter o choramingo dos vereadores do partido na cidade. Quem já imaginava ter visto tudo, caiu do cavalo.
A Câmara foi palco do “espetáculo”. Debutante na vereança, Ronaldo Formigão tomou as dores do seu presidente Hamilton Chaves e queixou-se com voz embargada. Não foi contra a filiação de Caroline, mas reclamou da forma como aconteceu. “O diretório não estava sabendo, eu não fiquei sabendo; fiquei sabendo através do jornal, com críticas em cima do comando do partido”, desabafou, referindo-se às declarações da 1ª dama de que o DEM comportava-se como um apêndice do PSDB em Jaú. No final, falou em responsabilidade e caráter para pedir respeito ao partido. Em outras palavras, como se costuma dizer em política, “passou recibo” do descaso partidário e de sua própria imaturidade política.
Sentidos, os escudeiros do governo municipal puseram-se a campo para conter o choro demista. Frederico do PV, advogado por formação, logo de partida enalteceu o “caráter e a honestidade” dos componentes do DEM, como se essas qualidades tivessem sido arranhadas com a filiação da 1ª dama à legenda. Não satisfeito, ainda condenou a filiação por via estadual, sem conhecimento da direção local, ignorando que a beneficiada é justamente a esposa do prefeito, homem do mesmo partido que o seu. Resumo: “passou recibo” da falta de comunicação entre membros do mesmo grupo.
Mas o pior ainda estava por vir. O também verde Paulo de Tarso, falando com autoridade de presidente da Casa, sugeriu que Formigão propusesse a concessão de “um título de cidadão jauense ao nosso prefeito Kassab” – lembrou um pai oferecendo um presente ao filho magoado. Para afastar qualquer hipótese de rasteira política nos demistas locais, o presidente afirmou que não fazia parte do currículo de seu grupo “qualquer tipo de ação às costas”. Mais adiante, apelou ao lugar comum dos políticos contrariados: “Imprensa precisa vender jornal também, precisa ter o sensacionalismo muitas vezes. E a falta de informação pode levar a criar uma cultura que não corresponde à realidade”.
O Jornal Gente e a Rádio Piratininga deram um banho de astúcia e competência profissional neste episódio, a exemplo de tantos outros. Suas matérias, quase sempre exclusivas, balizam os comentários nas rodas políticas e a repercussão dos fatos até nos demais veículos de informação – como aconteceu nos dias seguintes às notícias da filiação de Caroline ao DEM. Apesar da vontade de alguns políticos, notícia que ameaça os interesses dos seus grupos não pode ser confundida com sensacionalismo para aumentar a vendagem de jornal. É apenas a reprodução do que acontece na vida real.
Por falar nisso, a vida real na política é muito diferente do parquinho de diversões imaginado por muitos dos nossos políticos atuais. Apesar de querer que as coisas funcionem de um jeito diferente, não se pode negar a maneira como elas de fato ocorrem. Não tem lugar para ingênuo no jogo político. A disputa é sempre predatória: vence quem conquista mais apoio, é derrotado e cai fora do jogo quem perde apoio. Tapar o Sol com a peneira não resolve. Fazer beicinho contra os esbarrões dos adversários, muito menos. Culpar a imprensa, então, nem se fala.