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Colírio e comprimido pra dor de cabeça

por: Hailton Medeiros

Enquanto alguns integrantes da equipe de transição de governo do futuro prefeito de Jaú ocupam-se de rasgar elogios à postura “cordial, amigável e transparente” da atual administração, são alvo de chacotas pelas costas. Não raras vezes, aparece alguém dizendo que ouviu um ou outro assessor do governo fazendo piadinhas sobre o “comportamento inexperiente” dos futuros ocupantes do Paço.
Sarcasmos à parte, a verdade é que ninguém que se digladiou numa campanha eleitoral encerrada há menos de 60 dias, de repente passa a se gostar, como vinha parecendo. Há muitos interesses envolvidos nisso, é bem verdade, o que poderia até nortear os entendimentos, mas é típico do ser humano alfinetar o próximo. Especialmente se este próximo é justamente aquele que venceu uma batalha e vai lhe tomar o lugar (leia-se: emprego e mordomias características do Poder, para uma boa compreensão dos fatos).
Não tem nada de “cordial, amigável e transparente” para ser exaltado nesse processo. Se não tudo, a maioria dos documentos e informações passados pela atual administração já eram do conhecimento público – estão disponibilizadas no site da Prefeitura, fizeram parte das prestações públicas de contas obrigatórias pela Lei de Responsabilidade Fiscal ou, em último caso, foram submetidas à Câmara. Ninguém está fazendo favor nenhum. Afinal, estamos lidando com Poder Público – logo, se é público, teoricamente não pode ter nada que não seja do conhecimento de todos.
Essa semana o deputado Toffano (PV) deu o grito de alerta contra os eventuais falsos sorrisos de hoje, que podem esconder as “bombas armadas” para explodir amanhã. No colo do futuro prefeito, claro, que é do Partido Verde. O sinal amarelo foi aceso pela licitação para a obra do aterro sanitário, exigido judicialmente há sete anos e meio, cujas propostas deverão ser entregues à Prefeitura no dia 23 de dezembro, antevéspera do Natal e (pasmem!) faltando apenas oito dias para o final da administração.
Por que será que os ‘cordiais, amigos e transparentes’ integrantes da equipe do atual governo não fizeram qualquer referência à licitação, inclusive no dia seguinte à assinatura da mesma, quando houve encontro público da transição? Esquecimento? Ou julgaram não se tratar de nada tão importante assim, a ponto de trocarem idéias com o grupo do futuro prefeito? Grupo – é bom que se diga – que arcará com as conseqüências das decisões que forem tomadas agora.
Segundo estimativa da própria Prefeitura, divulgada incontáveis vezes na imprensa e levada à própria Justiça como justificativa para a obra que não saía, o aterro deverá custar R$ 4 milhões. Um belo naco do dinheiro disponível para investimentos no Orçamento. Alguém do atual governo, na única menção à questão, falou apenas que “o bicho não é tão feio assim”, dando a entender que talvez o aterro possa custar menos. O que, por sua vez, não é menos curioso que o restante da história, pois se for mesmo isso, deixaram para descobrir apenas no apagar das luzes do governo (...).
Que o episódio coloque de sentinela os menos avisados. Em política não tem lugar para ingênuos. Nem tampouco para aqueles que acreditam em cordialidades, amizades sinceras e transparências irretocáveis entre grupos rivais. E mais: queiram ou não os novos inquilinos do Paço, o choque de realidade virá no dia 1º de janeiro de 2009, com estoque de sobra de problemas para resolver. Entre eles o bisonho Plano Diretor, o cambaleante Saemja, o detonado Ceprom e, para engrossar o caldo, a famigerada licitação do aterro sanitário.
Talvez seja melhor providenciar desde já um colírio para desembaçar os olhos e um comprimidinho pra dor de cabeça.